8 de novembro de 2011

Mesa Direitos humanos, sujeitos e reconhecimento: novas moralidades em debate coordenado por Laura Moutinho na ANPOCS

Fazendo ciências sociais no Brasil


por Yvonne Maggie - no seu blog pessoal "A vida como ela parece ser"

A Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs), criada em 1977, congrega centros de pesquisa e pós-graduação em antropologia, ciência política e sociologia para discutir questões relevantes da agenda política e científica do País e do mundo. Anualmente, desde sua criação, promove encontros com extensa programação de palestras, mesas redondas, grupos de trabalho, simpósios, fóruns e cursos. Esses congressos reúnem grande fatia dos cientistas sociais brasileiros e alguns estrangeiros.

Os primeiros encontros, realizados em Águas de São Pedro, ainda em plena ditadura, eram frequentados por poucos cientistas. Com o passar dos anos a Anpocs tornou-se um dos mais importantes centros de discussão de temas relacionados à vida cotidiana de diversos grupos sociais, à política, às relações internacionais e à pesquisa pura.

Há anos nossos encontros se realizam nos hotéis de Caxambu, que hospedavam famílias em férias para banhos e curas nas águas sulfurosas da cidade. Anualmente os hotéis da cidade abrem suas portas para um crescente número de cientistas sociais, pós-graduandos e graduandos do Brasil e de outros países para debaterem temas variados.

O 35º Congresso, realizado em outubro de 2011 e secretariado pela antropóloga Maria Filomena Gregori, foi um encontro dos mais bem-sucedidos, não só pela organização de sempre, mas pela forma com que propiciou as relações de convívio e debate entre as pessoas ali reunidas. O clima de descontração fez do encontro um dos mais aprazíveis a que estive presente, e possibilitou o sucesso das discussões sobre temas essenciais para a vida no mundo contemporâneo.

Assisti a uma belíssima e emocionante mesa redonda organizada pela antropóloga Laura Moutinho, professora do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e minha ex-aluna de graduação e mestrado. Há uns meses Laura me disse que iria organizar na Anpocs uma mesa intitulada – Direitos humanos, sujeitos e reconhecimento: novas moralidades em debate –, composta por um homem trans, uma ex-prostituta e organizadora do movimento das prostitutas no Brasil e uma antropóloga feminista. Assustada, expressei um leve ai. Laura timidamente exclamou: “Não se preocupe!!!”. Mesmo não sendo este o tema e objeto de minhas pesquisas, fiz questão de comparecer ao evento. Confesso que foi uma das experiências mais verdadeiramente antropológicas que presenciei em anos de congressos e reuniões desse tipo.

A fala dos oradores deixou a plateia emocionada. Não porque lá estivessem nativos esdrúxulos expondo e expondo-se como vítimas a cientistas – numa espécie de “antropologia de varanda” feita antes de Bronislaw Malinowski, um dos heróis fundadores da antropologia, ter criado o método da observação participante –, mas porque possibilitaram o que a boa antropologia ensina: conhecer o sistema de pensar, sentir e agir dos diversos grupos humanos buscando o que os universaliza.

A mesa, coordenada por Laura Moutinho, era composto de dois expositores: um homem trans (categoria que na “sopa de letrinhas” do movimento LGBT significa uma moça que passou por cirurgias para se transformar em homem, biológica e subjetivamente) e uma ex-prostituta, líder do movimento de enorme sucesso criador da grife Daspu. A debatedora, Guita Debert, uma antropóloga, professora titular da Unicamp e feminista.

Guilherme Silva de Almeida – doutor em Saúde Coletiva, professor da Uerj e coordenador do Laboratório Integrado da Diversidade Sexual, Políticas e Direitos (Lidis/Uerj) – se autodefine como homem trans. É um rapaz viril, mas ao mesmo tempo, sedutor e gentil, e partiu da sua experiência e da história de outras pessoas que passaram pelo mesmo processo, para esboçar o quadro teórico ou os princípios gerais a seu ver fundamentais para explicar essa vivência, em um tom otimista e muito carinhoso para os que o ouviam. Gabriela Leite, a ex-prostituta, discursou do ponto de vista do movimento das prostitutas em oposição a alguns setores do movimento feminista que tendem a vê-las como vítimas a serem resgatadas e, fez mais, levou-nos a pensar sobre o quadro teórico mais amplo em que está inserida sua luta. Guilherme situou o processo experimentado por ele e muitas outras pessoas como uma transformação para poder vivenciar a normalidade e não a abjeção ou o sentimento de inversão e achincalhe. Uma busca de viver sua individualidade plena, sem estar “montado no estribo da biologia”, como definiu.

Tudo o que foi dito naquela mesa me pareceu uma verdade incontestável e Guilherme me fez pensar sobre a antropologia clássica e de que modo o estudo das novas maneiras de fazer-se indivíduo pode ser frutífero para repensar o lugar do pesquisador na contemporaneidade. Neste mundo tão cheio de antropólogos que, ao contrário de Guilherme, propõem engenharias sociais e pensam muito pouco nos objetos dessas políticas, a mesa organizada por Laura Moutinho me devolveu a esperança. Esta proposta conduz a um mergulho nos sentimentos e na vivência das pessoas pesquisadas.

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Sobre o Núcleo

Desde o início de 2007 um grupo de professores e alunos de graduação, pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado vinculados ao Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) vêm se reunindo com o objetivo de partilhar idéias e trocar experiências de pesquisa que tratam da produção social da diferença por meio da articulação de categorias de raça, gênero, sexo, idade e classe, tanto do ponto de vista da configuração de sistemas de classificação social, como da constituição de corpos e identidades coletivas. Tanto na pesquisa empírica, como na esfera das discussões teóricas, percebe-se que temas que costumavam ser tratados separadamente - gênero e raça, por exemplo, eram antes construídos como problemas teóricos estanques - precisam ser compreendidos e estudados em termos da intersecção destas categorias.

O Brasil como outros países, vem assistindo nos últimos anos a uma discussão pública crescente sobre questão "racial" e "racismo", miscigenação e nação, sistema de ação afirmativa, cotas e políticas públicas com base na diferenciação por "cor/raça", além da reconfiguração da questão das terras ditas "terras de pretos" ou dos "remanescentes dos quilombos". No âmbito das questões relacionadas à sexualidade e gênero, vivemos também atualmente um processo de importantes redefinições, tanto no nível da ética sexual (os limites do que deve ou não ser tolerado), quanto no nível da política sexual propriamente dita (os limites do que deve ou não ser criminalizado). As discussões em curso no país sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo, sobre o combate à violência conjugal e o assédio sexual, o aborto assistido, a profissionalização da prostituição, o turismo sexual são apenas alguns exemplos desse processo de transformação.

Problemas sociais e problemas de pesquisa sócio-antropológica especificam-se crescentemente em sujeitos de direitos minoritários referidos a marcadores de raça, etnia, gênero e orientação sexual, que ocupam de modo inédito a agenda política e acadêmica do país. Ao se penetrar no labirinto da produção de categorias identitárias e formas de discriminação associadas àqueles marcadores de diferença, é possível é possível perceber como a produção do saber vem atuando e sendo incorporada aos movimentos sociais em questão.

Trata-se não apenas de reelaborar questões clássicas e recorrentes sobre miscigenação, erotismo e nação, mas também refletir sobre o impacto das políticas de identidade e de ações afirmativas, percorrer o embate entre políticas de escopo universalista e políticas de promoção de direitos especiais, bem como buscar a compreensão renovada de convenções, representações e sociabilidades associadas a raça, etnia, sexualidade e gênero. Os novos tempos trazem novos desafios conceituais e acabam por exigir novas frentes de pesquisa, evidenciando a necessidade de lançar mão de perspectivas mais comparadas, que inter-relacionem aquelas categorias, redimensionando sua própria aplicabilidade e significação.

Linhas de atuação:

  • A produção histórica e cultural da racialização/etnização da sexualidade e da sexualização da raça/etnia, e suas implicações em termos dos diferentes sistemas de dominação.
  • A articulação de gênero e sexualidade em corpos hierarquizados em termos de raça/etnia.
  • Imagens, representações, convenções e saberes em torno de raça, etnia, sexualidade e gênero.
  • Práticas cotidianas e sociabilidades em torno de raça, etnia, sexualidade e gênero.
  • Políticas e discursos públicos sobre raça, etnia, sexualidade e gênero.
  • Produção de desigualdades em torno destas categorias e de suas intersecções
  • Interações entre racismo, sexismo e homofobia, e as formas de naturalização e essencialização de diferenças sociais.

Professores vinculados:

O Numas conta ainda com a participação de 6 alunos de Mestrado, 7 de Doutorado, 8 de Iniciação científica e 1 de Pós-Doutorado.