26 de maio de 2010

Entrevista - Érica Peçanha

Foi publicada no Forum de Literatura Brasileira Contemporânea (www.forumdeliteratura.com) uma entrevista com Érica Peçanha a respeito de seu livro Vozes marginais na literatura. Érica Peçanha é pesquisadora vinculada ao NUMAS e aluna de doutorado pelo PPGAS da FFLCH/USP.

Segue abaixo o trecho inicial da entrevista publicada.
Para acessar a entrevista na íntegra clique aqui.

ÉRICA PEÇANHA DO NASCIMENTO
“É imprescindível que a produção dos escritores da periferia seja
reconhecida como literatura”

Érica Peçanha do Nascimento é antropóloga e tem se dedicado a pesquisar a produção cultural das periferias. Doutoranda da USP e professora de uma rede de cursinho pré-vestibular para alunos de baixa renda, é autora de Vozes marginais na literatura (2009), que toma como mote a atribuição do adjetivo “marginal”, por parte de alguns escritores da periferia, para caracterizar a si ou aos seus produtos literários no limiar do século XXI.
Publicado na Coleção Tramas Urbanas, da Editora Aeroplano, o livro é uma versão ampliada e revista de uma pesquisa de mestrado que tem o mérito de ser o primeiro registro acadêmico da importante cena literária que se estabeleceu nas periferias paulistanas. No centro da análise encontram-se as trajetórias, obras e atuações culturais de Ferréz, Sérgio Vaz e Sacolinha (Ademiro Alves), autores que participaram das edições especiais Caros Amigos/Literatura Marginal: a cultura da periferia.
Na entrevista abaixo, concedida por email à doutoranda em Letras Ingrid Hapke (Universidade de Hamburgo, Alemanha), a antropóloga fala dessa literatura situada à margem do cânone, sintetizando seu histórico de emergência e analisando suas relações com o meio literário e o mercado editorial.

De onde vem seu interesse específico pela temática da “literatura marginal”? Quais foram os objetivos de sua pesquisa?
Desde a época da minha graduação em Sociologia e Política tenho acompanhando como pesquisadora os movimentos culturais da periferia paulistana. Por conta disso, em 2003 estive em um evento sobre hip hop que também discutia a literatura periférica. Foi assim que descobri as edições especiais Caros Amigos/ Literatura Marginal: a cultura da periferia e passei a me dedicar ao tema. Durante meu mestrado, realizado entre 2004 e 2006 no Departamento de Antropologia da USP, tomei como objeto de estudo os escritores que publicaram nas três edições especiais Caros Amigos/ Literatura Marginal e procurei compreender a que se refere a apropriação recente da expressão “literatura marginal” por escritores da periferia, assim como investigar de que maneira essa apropriação se traduz em produtos literários e atuações culturais específicas.
Creio que estudar a produção cultural da periferia é uma maneira de satisfazer um desejo pessoal de abordar, academicamente, assuntos que também têm relevância política.

[...]

8 de maio de 2010

Divulgação de ST - ANPOCS

A sessão Temática “Desigualdades: desafios teóricos e novas configurações” (resumo abaixo) foi proposta com o objetivo de aglutinar estudos sobre o fenômeno a partir da Sociologia, Antropologia e Ciência Política buscando o diálogo com áreas afins (como Filosofia, Direito e Economia). A ênfase está em explorar as questões teóricas e metodológicas no tratamento do tema, bem como, discutir resultados de pesquisa sobre suas novas configurações e desafios.

O prazo de inscrição é dia 26 de abril. Para se inscrever, acesse o site da ANPOCS (http://sec.adtevento.com.br/anpocs/inscricao/index.asp?eveId=3). É necessário o envio de um resumo simples de no máximo 900 caracteres com espaço e um resumo expandido no máximo 9.000 caracteres com espaço.


ST06 - Desigualdades: desafios teóricos e novas configurações


Coordenadores: Márcia Lima (USP), José Alcides Figueiredo Santos (UFJF)

As recentes mudanças ocorridas no cenário brasileiro no âmbito das desigualdades sociais impulsionam sua agenda de estudos para novas direções tanto em termos de exploração teórica quanto metodológica. A proposta deste Seminário Temático é promover um diálogo entre pesquisadores voltados à compreensão das desigualdades ampliando seu escopo analítico e metodológico. Tem o intuito de ser um momento de convergência dos estudos sobre as desigualdades em suas dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais tanto do ponto de vista da sua produção e reprodução quanto das suas vias de superação..

14 de março de 2010

Chamada - 27ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA)

Apresentamos abaixo a chamada de trabalhos para o GT 29: Sexualidades e novas culturas corporais: identidades e diferenças coordenado por Fabiano Gontijo (UFPI) e por Laura Moutinho, professora vinculada ao NUMAS, na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA) – Conhecimentos e Saberes Tradicionais no Brasil Plural, de 1 a 4 de agosto de 2010, em Belém, Pará.

GT 29: Sexualidades e novas culturas corporais: identidades e diferenças
Coordenadores: Fabiano Gontijo (UFPI) e Laura Moutinho (USP)
Debatedores: Antonio Sérgio Guimarães (USP), Cristina Donza Cancela (UFPA) e Sérgio Carrara (UERJ - a confirmar)
Resumo:
Este GT incide sobre as pesquisas que vêm sendo realizadas nos mais diversos estados brasileiros sobre a produção social da diferença, especialmente, as que articulam categorias relativas a sexo, gênero, idade, raça e classe. Interessa-nos refletir tanto sobre as formas de marcar e constituir corpos e identidades quanto os sistemas de classificação social que impregnam (e conformam) a economia do prazer, do desejo, da dominação e do poder. São variadas as categorias organizacionais, conceituais e políticas que vêm informando as tomadas de posições dos sujeitos, neste sentido, poderão ser acolhidas as pesquisas que incidem sobre a inflexão provocada pela recente especificação dos direitos. Os aparatos teóricos e metodológicos utilizados receberão especial atenção, visto que novas abordagens e temas, bem como certo entrecruzamento das agendas políticas e acadêmicas vêm promovendo novos canais de comunicação e (re)posicionando os sujeitos produtores do conhecimento. Trata-se, assim, de uma tendência que exige uma aprofundada reflexão. De que modo as diferentes tradições políticas, sociais e culturais determinam trajetórias individuais e coletivas diversas, em cada situação particular estudada? Onde residem as resistências sociais? Quais as faces do preconceito, do sexismo e da homofobia? Estas são algumas das questões que orientarão as discussões propostas com objetivo de estimular uma fértil troca de idéias, fomentando a constituição de novas parcerias e/ou redes de pesquisa.

O GT ocorrerá em no máximo três sessões, com cinco apresentações por sessão, totalizando 15 propostas. Para o GT, os estudantes de graduação poderão apresentar trabalhos em formato de painéis, que serão expostos nas salas onde funcionarão os respectivos Grupos, em número de até cinco painéis. Os associados da ABA terão prioridade na seleção dos trabalhos para os GTs que deverão ser compostos por, no mínimo, 80% de associados (com anuidade em dia) nas apresentações orais.

O prazo limite para a envio dos resumos é 10 de abril de 2010. Os resumos devem incluir título do trabalho, autor, email e filiação institucional. As inscrições de resumos para o GT serão realizadas diretamente no site da ABA (www.abant.org.br).

10 de março de 2010

Notícia - Travestis e transexuais não se limitam à definição médica

Foi publicado recentemente na Agência USP de Notícias (http://www.usp.br/agen) um artigo acerca da tese de mestrado de Bruno César Barbosa, pesquisador vinculado ao NUMAS e aluno de doutorado em antropologia social na linha marcadores sociais da diferença.
A partir desse link você pode acessar a página original.
Segue abaixo na íntegra o artigo em questão:

Travestis e transexuais não se limitam à definição médica

A partir de estudo feito com travestis e transexuais, o antropólogo Bruno Cesar Barbosa concluiu que pessoas que praticam transformações de gênero utilizam uma diversidade de categorias em seu cotidiano. Segundo o pesquisador, elas utilizam uma série de categorias para definição do que são, das categorias travesti e transexual, até outras como trans e transex, ou categorias ligadas à homossexualidade como gay e homossexual.

Pesquisador defende que transexuais e travestis são construções sociais

O autor defende que estas categorias são construções sociais. No entanto, as definições médicas, baseadas em manuais internacionais e em organizações internacionais como a Organização Mundial de Saúde (OMS), encontram maior legitimidade no uso cotidiano destas pessoas para definirem suas vivências. Segundo estas definições médicas, uma/um travesti seria aquele (a) que se comporta e se veste como o outro gênero, mas não quer a cirurgia para mudar seu órgão sexual. Já os/as transexuais, sentem a necessidade de fazer a cirurgia, pois se sentem do outro gênero desde o nascimento

“A operação é recorrente na fala e é um elemento central na produção das diferenças entre travestis e transexuais. Mas ela (a definição médica) pode ser contraposta por outros fatores” afirma Barbosa, que também ressalta a importância de elementos como diferenças de classe, cor e geração na construção da imagem das categorias travesti e transexual. Barbosa exemplifica dizendo que um dos típicos estereótipos criados e ligados às travestis é de que são pobres, negras, prostitutas e marginais; enquanto que as transexuais são ligadas as classes médias e altas, exemplificado pelo uso de termos “fina” e “educada” pelas pessoas pesquisadas, e são vistas como mais mulheres em relação as travestis.

Mesmo os médicos incorporam esses estereótipos ao associar a característica de “safadeza” às travestis, como Barbosa relata: “Se a pessoa é da prostituição, por exemplo, já pode ser um motivo para dizer que ela não é transexual, porque quer dizer que ela utiliza o órgão sexual dela para prazer. E “safadeza” pode virar também, neste sentido, um signo de masculinidade. A imagem de uma ‘mulher de verdade’ constrói o que é ser transexual para os médicos, assim como para muitas pessoas que se dizem transexuais”.

Em sua pesquisa, que foi defendida como sua dissertação pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o antropólogo observou que estas pessoas utilizam uma série de categorias que tem relação com as situações que elas vivenciam no cotidiano. Neste uso, tais pessoas não se prendem às definições médicas, mas também associam convenções de gênero, sexualidade, classe e raça.

Terças Trans
O pesquisador conciliou seus conhecimentos na sua área de estudo com o convívio por dois anos com transexuais e travestis em reuniões denominadas Terças Trans, que ocorrem quinzenalmente no Centro de Referência em Diversidade (CRD), um equipamento social direcionado para o grupo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) na cidade de São Paulo.

Nos encontros, Barbosa observou as interações e debates entre as participantes, além de coletar narrativas de história de vida de três delas. O pesquisador pôde estudar suas vivências de sexualidade e gênero e procurou compreender outras características das participantes que as faziam classificar a si mesmas como travesti ou transexual.

Barbosa notou que as pessoas não se fechavam ao conceito clínico das categorias. A categoria em que se encaixavam variava com a situação social que a pessoa vivenciou, ao mesmo tempo em que ela poderia se identificar diferentemente ao longo da sua vida.

Ele cita o caso de um dos participantes das reuniões, Carla*. Ela já se identificou de várias formas em sua vida: travesti, transexual, trans, performer, homossexual. Hoje ela diz que descobriu ser intersexo — termo usado para quem pode ter ambos os órgãos sexuais parcial ou completamente desenvolvidos. Barbosa destaca que, nos encontros, Carla conseguia se dizer transexual sem perder a legitimidade diante das outras.

O fato curioso dessa situação é que Carla não é operada, o que é considerado um fator importante para as participantes como a “prova da transexualidade”. Como Carla é branca, tem uma fala articulada, e tem um histórico de artista entre as participantes, sendo vista como um feminino “bem sucedido”, as outras não a viam como travesti.

Com casos como esse, o pesquisador percebeu que as próprias participantes traziam as imagens que a sociedade cria em torno das categorias ao se definirem e ao classificarem as outras participantes. Barbosa diz que nas relações entre elas há a construção de uma hierarquia de gênero, no qual transexuais são vista como “mais mulheres” em relação às travestis. Estas, por sua vez, acabam relacionadas a aspectos masculinos, que são moralmente rebaixados para algumas das participantes, como uma sexualidade exagerada e um feminino mal sucedido.

*Nome fictício


Mais informações: brunoicb@yahoo.com.br